quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Somos novos ainda. Estamos aprendendo.


Dia desses eu ouvi que a minha geração não tem planos. Que a minha geração não tem a mesma garra. Que a minha geração não tem força para virar noite após noite até se tornar diretor. Ouvi que desistimos logo, que não temos referência, que nosso trabalho é irrelevante, que colocamos a qualidade de vida como prioridade cedo demais. 

Secretamente me perguntei se deveria estar me endividando para comprar um apartamento, se deveria desejar com mais ardor uma cozinha planejada, se deveria conseguir me enxergar com clareza num futuro estável. Quando eu me imagino em dez anos, não consigo dizer que me sentiria realizada trabalhando numa dessas cadeiras de couro altas, repetindo o modelo que já não me agrada. Talvez tenhamos nos tornado mesmo maus jogadores. Ou talvez a gente só queira jogar outro jogo.

Concordo que estamos desatentos, mas acho injusto culpar os smartphones pela nossa dislexia: temos um mercado que expulsa os mais velhos, os colegas com crises de pânico, a glamorizada globalização do trabalho que, na prática, significa competir com gente que cobra muito pouco. Não tenho vontade de descobrir com os meus próprios olhos que essa rua é sem saída. Mas não acho que seja preguiça. 

Crescemos ouvindo que era melhor não depender da aposentadoria, que as empresas eram impessoais, que o governo ia acabar roubando a gente. Ainda muito cedo, ficamos céticos em relação à hierarquia, mas não nos ensinaram o segundo passo. Saí do colégio sabendo decor o ciclo de reprodução das gimnosperma, mas sem a menor ideia dos impostos que me esperavam. Sabia o nome de todos os presidentes, mas nada aprofundado sobre os partidos de agora. Pensava, assim como meus pais, que o curso superior seria um grande diferencial.

Acho que nos iludimos que a vida de adulto seria mais fácil, mas quando eu paro pra pensar nas disciplinas inúteis do nosso currículo, no preço indecente dos apartamentos e no piso sofrível de quase todas as profissões, eu não sei como poderíamos estar melhores. É um processo. Conheço muita gente se esforçando pra construir algo que faça sentido. Apesar da velocidade do nosso tempo, considero uma oportunidade crescer em uma geração que pode se dar ao luxo de mudar de ideia, que olha com receio para os sonhos pré-moldados e não busca o sucesso a qualquer custo só pra esfregar na cara de alguém.

Estamos confusos, mas não perdidos.
Sabemos o que não queremos. Já é meio caminho andado.

2 comentários:

  1. Mais um texto que mexe com o leitor. É a partir da reflexão e do confronto de ideias que se descobre o caminho desejável. Um tema polêmico e bem discutível, já que as referências das diferentes gerações mudam. Quem sabe ao certo qual o "padrão ouro" para o dito sucesso no mercado de trabalho e na sociedade? Parabéns, Sarah.

    ResponderExcluir
  2. Já dizia Renato Russo: Acho que não sei quem, mas sei do que não gosto. Nos falam para pensar fora da caixa, mas muitos não entendem que isso tem consequências. Estamos dando tiros no escuro e só fazem cobrar uma pontaria impecável.

    ResponderExcluir

Ontem eu achei um emprego. Hoje eu pedi demissão.

Ontem eu achei um emprego. Hoje eu pedi demissão. Vou explicar o motivo para que vocês se saiam melhor do que eu. Desemprego mata a aut...